quinta-feira, 26 de junho de 2008


segunda-feira, 23 de junho de 2008

Potycabando


Eu, em direção à zona sul de Teresina, com certo objetivo. Volto sem ter alcançado, mas tudo bem. Agora sentido zona leste, passo em frente ao Parque Potycabana, e pelo motivo da realização dos folguedos, os portões estão abertos para manutenção de alguns detalhes da estrutura física do evento. Entro com minha mochila nas costas e vou direto ao bowl (piscina para prática do skate) ver quais as condições em que se encontra esse espaço. Deparo-me com alguns trabalhadores que logo perceberam minha presença, debocharam da minha cara dizendo:
-Pensava que ia andar de skate aqui? Olha ai, pode dar teu mergulho!
Olho para a cara do rapaz e abaixo minha cabeça. Logo tiro minha câmera da mochila e começo a fotografar aquele desperdício, destruição, abandono, descuido, caos, sujeira, que se encontrava em um lugar que poderia, naquele momento, está sendo usado para a prática do esporte. Vejo que aquilo ali é muita irresponsabilidade do governo. Um parque como aquele está fechado para o lazer da população. Quando olham pra mim e vêem que estou registrando aquela falta de vergonha, se aproximam e dizem que não é permitido fotografar aquilo, pois era melhor esperar eles secarem a piscina pra que eu fotografasse ela bem bonitinha. Mas logo reajo dizendo que vou publicar em vários lugares para denúncia sobre foco de dengue, que realmente ali sim é um “foco-mãe”. Pronto. Tudo registrado, todos revoltados, eles pelas fotos, eu, pelo descaso.

Fotos: Maurício Pokemon



sábado, 21 de junho de 2008


sexta-feira, 20 de junho de 2008


Foto: Jairo Moura

quinta-feira, 19 de junho de 2008


quarta-feira, 18 de junho de 2008

Uma história que não está nos gibis

1      Após banhos de rio, partida de futebol no Lindolfo Monteiro ou sessões vesperais de filmes e seriados no Cine Rex, um grupo de amigos, entre jovens e crianças com revistas e gibis embaixo do braço, se encontravam diariamente nas proximidades da Praça Pedro II, coração de Teresina. O objetivo: voltar pra casa com o maior número possível de exemplares usados, porém inéditos, daquela coleção de gibis tão cobiçada. A década: 60.

    Valia qualquer tipo de negócio. Duas usadas por uma nova, uma usada e mais um cruzeiro, troca, troca, e destroca. Como até hoje, o negócio funciona – me explica Antônio de Pádua Marineles, o Dentinho, dono de uma banca de revistas usadas na Avenida Senador Theodoro Pacheco, nas proximidades do lugar onde, quando criança, começou a prática da troca de revistas e gibis. Hoje, Dentinho é dono de um grande acervo de material para leitura. Exemplares raros para colecionadores podem ser encontrados lá. O público, segundo ele, mudou um pouco. As crianças da sua época, são os adultos freqüentadores da sua banca hoje, comprovando que o hábito permanece, embora a valorização dessa prática entre as crianças, por exemplo, tenha caído muito. “Hoje em dia tem muita opção de lazer. É restaurante pra todo lado, televisão, internet, dvd. Na minha época trocar revistas era a diversão, todo mundo gostava.”

    2

    Os poucos sobreviventes a esse comércio de décadas, estão ali, naquele ponto do centro. Um corredor cheio de fontes vivas de uma parte da história da cultura de Teresina, quase que despercebido por quem passa naquele trecho diariamente.Dentinho disse nunca ter se interessado em comprar revistas e jornais novos pra vender. Sempre gostou mesmo de trabalhar com a história e a troca. Com as releituras de personagens clássicos de gibis e revistas e o advento de novas tecnologias, a procura por material histórico para coleção caiu muito. E com a redução cada vez mais preocupante do hábito da leitura entre os jovens, essa prática está quase destinada ao fim. Mas Dentinho parece não demonstrar muita preocupação com isso. “Isso aqui é a minha única fonte de renda e prazer. Continuarei aqui até a hora da morte.”, afirma.

    Muitos dos colegas da época foram embora da cidade, abandonaram o negócio ou já não estão mais aqui para contar a história da qual Dentinho se orgulha de fazer parte. Outros, entretanto, investiram em inovações, como a venda de jornais diários, além de revistas e outros serviços, o que acabou transformando a prática infantil em negócio. Como é o caso da antiga Banca do Joel, hoje Loja, do outro lado da rua onde converso com Dentinho. Pergunto a ele qual sua relação com o colega Joel, jornaleiro, talvez, mais famoso da cidade atualmente. “Rapaz, a gente é político.” Responde Dentinho, bem-humorado. “Não somos mais tão colegas de chegar na porta e bater papo. Ele tem os negócios dele lá, e eu continuo aqui no meu. Pronto.” Fim de papo.

    Os problemas de trabalhar com material usado, são o volume, cuidado e armazenamento dos exemplares acumulados ao longo do tempo. No resto, é tudo bem menos estressante do que investir em coisas novas, na opinião de Dentinho. Antigamente trabalhava ao ar livre, expondo todas as revistas no chão, até a Prefeitura legalizar o negócio e permitir a instalação de banquinhas na calçada, mais ou menos nos anos 90. Sindicato, porém, ainda não existe. O motivo é simples: a maioria dos colegas de profissão não pagava a taxa exigida. “É como eu costumo dizer aqui: o pessoal trabalha com cultura, mas são tudo idiota.”, arrisca Dentinho.

    Se antigamente o homem compunha o público mais fiel de revista e livros para trocas nas bancas, hoje em dia esse papel é exercido por mulheres do perfil casadas, dona de casa, ou mocinhas. Disparado, os exemplares mais procurados são os de ‘Sabrina’. Histórias de romances que embalaram e ainda hoje embalam, segundo Dentinho, o sonho das moças. O público de colecionadores aqui em Teresina é fraco, porém cativo. Mas Dentinho diz que é até compreensivo. As próprias editoras lançam exemplares reformulados, o que faz ficar cada vez menos acessível o hábito de colecionar revistas e de se apegar a antiguidade.

    Dentinho não faz idéia em números da quantidade de livros e revistas em seu acervo, mas nos levou para conhecer um quarto cheio desse material, na frente da banca. Pilhas e pilhas de folhas escritas e encadernadas, que talvez nunca mais tenham procura. Mas enquanto houver alguém guardando um pouco da história cultural de nossa cidade em papéis de livros e revistas, há esperança.

Fotos: Maurício Pokemon

quarta-feira, 11 de junho de 2008

"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer..."

No Brasil, muita gente sobrevive do trabalho informal, e há até quem invente a própria profissão, o famoso “jeitinho brasileiro” de ganhar a vida. Em Teresina não é diferente e foi daí que surgiu a idéia de fazer uma série de reportagens sobre pessoas que trabalham nas ruas da cidade, anônimos com quem cruzamos todos os dias e nem imaginamos quanta coisa têm pra contar.
Fui encontrar o primeiro entrevistado na rua Treze de Maio, centro comercial da cidade, às nove horas da manhã de sábado. De longe ouvi a voz bem humorada gritando aos motoristas que procuravam um local pra estacionar: “tem vaga aqui, irmão. Isso... faz do jeito que eu te ensinei...”. Quem está ao volante do carro pode até não parar, mas não deixa de sorrir ante o apelo do flanelinha Walter Alves, 30 anos, que me recebeu com um aperto de mão e entre uma manobra e outra, contou que trabalha na rua desde os 11 anos de idade: “comecei limpando retrovisores dos carros que paravam nos sinais da avenida Miguel Rosa, até que me aconselharam a vir para o centro. Dá pra ganhar mais dinheiro aqui, sabe?”, diz.
Segundo Walter, é um trabalho como todos os outros, tem problemas e compensações. Há 19 anos nas ruas, ele ganhou a confiança tanto dos motoristas (muitos deles clientes fixos) quanto dos lojistas da região: “é ele quem vigia minha loja, uma espécie de segurança informal” diz Teresinha Borges, proprietária de uma ótica. “Conheço a família do Walter, são pessoas trabalhadoras, idôneas. Ele já teve uma vida difícil, se meteu com drogas, mas eu o ajudei a sair dessa”, arremata. Pergunto se posso citar isso na matéria e Walter me diz que não tem nada pra esconder de ninguém, afinal, todo mundo erra.
Entre uma pergunta e outra, ele ajuda a estacionar os carros e pára de vez em quando pra dar informações aos transeuntes. Algumas vezes, quase é atropelado por motoristas mais afoitos e volta suado, flanela na mão, dizendo: “já até levei bandido pro distrito, com as mãos amarradas pela minha flanela, acredita?”. Acredito sim. Porque até então o rapaz não havia me contado que quer ser policial, pra ter uma profissão quando não quiser mais trabalhar na rua. De preferência no Estado do Maranhão onde, segundo ele, o salário é bem melhor.
Um carro encosta do outro lado e o motorista acena para o nosso lado: é Roberto Carvalho, perito criminal e vizinho de Walter, que precisa entrar rapidinho no BEP e pede que ele dê uma olhadinha no seu carro. Na volta, conversa comigo e diz que a Prefeitura de Teresina deveria investir nos flanelinhas: “estaciono aqui todos os dias. A prefeitura cobra uma taxa (zona verde) cujo destino é desconhecido, porque não temos segurança, por exemplo. Então por quê não dar emprego para essa gente, legalizar a profissão?”, finaliza antes de agradecer e sair.
Volto ao assunto das drogas e Walter me diz que já foi trabalhar caindo de tão chapado, mas as pessoas lhe deram um voto de confiança. O envolvimento com as drogas inclusive o impediu de ir para o Exército, um sonho antigo. Vítima de preconceito por alguns, por outro lado fez várias amizades na rua: “dou sorriso, alegria, trato com educação. Algumas pessoas inclusive me pagam além do que costumo ganhar no dia-a-dia”. Quando perguntado se quer voltar a estudar, antes de correr pra atender mais um cliente, diz que sim e que não se acha velho pra isso: “velho é o mundo”. E o mundo está cheio de gente que não espera acontecer: vai lá e faz.