quarta-feira, 11 de junho de 2008

"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer..."

No Brasil, muita gente sobrevive do trabalho informal, e há até quem invente a própria profissão, o famoso “jeitinho brasileiro” de ganhar a vida. Em Teresina não é diferente e foi daí que surgiu a idéia de fazer uma série de reportagens sobre pessoas que trabalham nas ruas da cidade, anônimos com quem cruzamos todos os dias e nem imaginamos quanta coisa têm pra contar.
Fui encontrar o primeiro entrevistado na rua Treze de Maio, centro comercial da cidade, às nove horas da manhã de sábado. De longe ouvi a voz bem humorada gritando aos motoristas que procuravam um local pra estacionar: “tem vaga aqui, irmão. Isso... faz do jeito que eu te ensinei...”. Quem está ao volante do carro pode até não parar, mas não deixa de sorrir ante o apelo do flanelinha Walter Alves, 30 anos, que me recebeu com um aperto de mão e entre uma manobra e outra, contou que trabalha na rua desde os 11 anos de idade: “comecei limpando retrovisores dos carros que paravam nos sinais da avenida Miguel Rosa, até que me aconselharam a vir para o centro. Dá pra ganhar mais dinheiro aqui, sabe?”, diz.
Segundo Walter, é um trabalho como todos os outros, tem problemas e compensações. Há 19 anos nas ruas, ele ganhou a confiança tanto dos motoristas (muitos deles clientes fixos) quanto dos lojistas da região: “é ele quem vigia minha loja, uma espécie de segurança informal” diz Teresinha Borges, proprietária de uma ótica. “Conheço a família do Walter, são pessoas trabalhadoras, idôneas. Ele já teve uma vida difícil, se meteu com drogas, mas eu o ajudei a sair dessa”, arremata. Pergunto se posso citar isso na matéria e Walter me diz que não tem nada pra esconder de ninguém, afinal, todo mundo erra.
Entre uma pergunta e outra, ele ajuda a estacionar os carros e pára de vez em quando pra dar informações aos transeuntes. Algumas vezes, quase é atropelado por motoristas mais afoitos e volta suado, flanela na mão, dizendo: “já até levei bandido pro distrito, com as mãos amarradas pela minha flanela, acredita?”. Acredito sim. Porque até então o rapaz não havia me contado que quer ser policial, pra ter uma profissão quando não quiser mais trabalhar na rua. De preferência no Estado do Maranhão onde, segundo ele, o salário é bem melhor.
Um carro encosta do outro lado e o motorista acena para o nosso lado: é Roberto Carvalho, perito criminal e vizinho de Walter, que precisa entrar rapidinho no BEP e pede que ele dê uma olhadinha no seu carro. Na volta, conversa comigo e diz que a Prefeitura de Teresina deveria investir nos flanelinhas: “estaciono aqui todos os dias. A prefeitura cobra uma taxa (zona verde) cujo destino é desconhecido, porque não temos segurança, por exemplo. Então por quê não dar emprego para essa gente, legalizar a profissão?”, finaliza antes de agradecer e sair.
Volto ao assunto das drogas e Walter me diz que já foi trabalhar caindo de tão chapado, mas as pessoas lhe deram um voto de confiança. O envolvimento com as drogas inclusive o impediu de ir para o Exército, um sonho antigo. Vítima de preconceito por alguns, por outro lado fez várias amizades na rua: “dou sorriso, alegria, trato com educação. Algumas pessoas inclusive me pagam além do que costumo ganhar no dia-a-dia”. Quando perguntado se quer voltar a estudar, antes de correr pra atender mais um cliente, diz que sim e que não se acha velho pra isso: “velho é o mundo”. E o mundo está cheio de gente que não espera acontecer: vai lá e faz.

5 comentários:

dhani accioly borges disse...

isso é um recado para o Mauricio Pokemon na real, passa o meu msn para ele
dhani_B@hotmail.com
valeu

Jucélio Jr. disse...

Rosinha, belo texto. Senti falta das fotos...

Luana Lia disse...

Texto sedutor, como sempre.
Adoooooro o que a Rosa escreve :}

Larissa Corrêa disse...

Gostei da idéia da série de reportagens!
Muito legal

Lima disse...

Suas reportagens são maravolhosas.
Adorei!
Parabéns pela idéia!
Abraço