quarta-feira, 18 de junho de 2008

Uma história que não está nos gibis

1      Após banhos de rio, partida de futebol no Lindolfo Monteiro ou sessões vesperais de filmes e seriados no Cine Rex, um grupo de amigos, entre jovens e crianças com revistas e gibis embaixo do braço, se encontravam diariamente nas proximidades da Praça Pedro II, coração de Teresina. O objetivo: voltar pra casa com o maior número possível de exemplares usados, porém inéditos, daquela coleção de gibis tão cobiçada. A década: 60.

    Valia qualquer tipo de negócio. Duas usadas por uma nova, uma usada e mais um cruzeiro, troca, troca, e destroca. Como até hoje, o negócio funciona – me explica Antônio de Pádua Marineles, o Dentinho, dono de uma banca de revistas usadas na Avenida Senador Theodoro Pacheco, nas proximidades do lugar onde, quando criança, começou a prática da troca de revistas e gibis. Hoje, Dentinho é dono de um grande acervo de material para leitura. Exemplares raros para colecionadores podem ser encontrados lá. O público, segundo ele, mudou um pouco. As crianças da sua época, são os adultos freqüentadores da sua banca hoje, comprovando que o hábito permanece, embora a valorização dessa prática entre as crianças, por exemplo, tenha caído muito. “Hoje em dia tem muita opção de lazer. É restaurante pra todo lado, televisão, internet, dvd. Na minha época trocar revistas era a diversão, todo mundo gostava.”

    2

    Os poucos sobreviventes a esse comércio de décadas, estão ali, naquele ponto do centro. Um corredor cheio de fontes vivas de uma parte da história da cultura de Teresina, quase que despercebido por quem passa naquele trecho diariamente.Dentinho disse nunca ter se interessado em comprar revistas e jornais novos pra vender. Sempre gostou mesmo de trabalhar com a história e a troca. Com as releituras de personagens clássicos de gibis e revistas e o advento de novas tecnologias, a procura por material histórico para coleção caiu muito. E com a redução cada vez mais preocupante do hábito da leitura entre os jovens, essa prática está quase destinada ao fim. Mas Dentinho parece não demonstrar muita preocupação com isso. “Isso aqui é a minha única fonte de renda e prazer. Continuarei aqui até a hora da morte.”, afirma.

    Muitos dos colegas da época foram embora da cidade, abandonaram o negócio ou já não estão mais aqui para contar a história da qual Dentinho se orgulha de fazer parte. Outros, entretanto, investiram em inovações, como a venda de jornais diários, além de revistas e outros serviços, o que acabou transformando a prática infantil em negócio. Como é o caso da antiga Banca do Joel, hoje Loja, do outro lado da rua onde converso com Dentinho. Pergunto a ele qual sua relação com o colega Joel, jornaleiro, talvez, mais famoso da cidade atualmente. “Rapaz, a gente é político.” Responde Dentinho, bem-humorado. “Não somos mais tão colegas de chegar na porta e bater papo. Ele tem os negócios dele lá, e eu continuo aqui no meu. Pronto.” Fim de papo.

    Os problemas de trabalhar com material usado, são o volume, cuidado e armazenamento dos exemplares acumulados ao longo do tempo. No resto, é tudo bem menos estressante do que investir em coisas novas, na opinião de Dentinho. Antigamente trabalhava ao ar livre, expondo todas as revistas no chão, até a Prefeitura legalizar o negócio e permitir a instalação de banquinhas na calçada, mais ou menos nos anos 90. Sindicato, porém, ainda não existe. O motivo é simples: a maioria dos colegas de profissão não pagava a taxa exigida. “É como eu costumo dizer aqui: o pessoal trabalha com cultura, mas são tudo idiota.”, arrisca Dentinho.

    Se antigamente o homem compunha o público mais fiel de revista e livros para trocas nas bancas, hoje em dia esse papel é exercido por mulheres do perfil casadas, dona de casa, ou mocinhas. Disparado, os exemplares mais procurados são os de ‘Sabrina’. Histórias de romances que embalaram e ainda hoje embalam, segundo Dentinho, o sonho das moças. O público de colecionadores aqui em Teresina é fraco, porém cativo. Mas Dentinho diz que é até compreensivo. As próprias editoras lançam exemplares reformulados, o que faz ficar cada vez menos acessível o hábito de colecionar revistas e de se apegar a antiguidade.

    Dentinho não faz idéia em números da quantidade de livros e revistas em seu acervo, mas nos levou para conhecer um quarto cheio desse material, na frente da banca. Pilhas e pilhas de folhas escritas e encadernadas, que talvez nunca mais tenham procura. Mas enquanto houver alguém guardando um pouco da história cultural de nossa cidade em papéis de livros e revistas, há esperança.

Fotos: Maurício Pokemon

7 comentários:

Jucélio Jr. disse...

Ótimo, Lua, como sempre. Parabéns pela matéria e ao Pokemon pelas fotos.

J.Jr.

Publicista! disse...

história muito interessante. Diferente de outras pautas e tal..
muito bom!

Georgia disse...

Minha irmã sempre arrasando em tudo que escreve!
Nunca esquecendo do que é de fato interessante, me orgulho demais em ler tudo isso.

Camila disse...

A-ha-zou! :D

Jairo Moura disse...

excelente Luana. Gostei muito tbm da diagramação com os parágrafos perfeitamente bem colocados e espaçados, nos dando uma leitura prazerosa.

georgiana disse...

Pena que poucos dão o devido valor. Mas ter lido sobre isso despertou o interesse de muitos, pode ter certeza.

Parabéns pelo texto, Lu; e pelas fotos, Maurício.

Rosa Magalhães disse...

Matéria gostosa de ler, sobre um hábito igualmente bacana: gibis. Parabéns, moçada!