quarta-feira, 7 de maio de 2008

Verde, amarelo, vermelho. Ação.

Teresina. Terça feira. 10 da manhã. Sol a pino no cruzamento das avenidas Homero Castelo Branco e Dom Severino, zona leste de Teresina, onde eu e Maurício vamos entrevistar o primeiro anônimo célebre deste blog, que na verdade nem é tão anônimo assim. Seu nome é John Felipe Dias Rodrigues, mas ele só vai se você chamar pelo segundo nome. Felipe estava jogando o que depois descobriríamos ser um ioiô chinês, comprado por ele através da internet. O mundo virtual é tudo mesmo, hein? Mas sim, voltando…



Felipe tem 19 anos e, quando a gente se apresenta interessados em passar a manhã acompanhando de perto seu trabalho – que ele denomina ‘arte de rua’- Felipe parece achar muito normal. Explico pra ele então, com um certo quê de ironia, confesso, que meu plano é transformá-lo em uma celebridade em nosso novo e recém-surgido blog. Mas ele, olhando para o chão e fazendo uma expressão de quem não demonstra nenhum interesse por aquilo, mas ao mesmo tempo achando tudo muito interessante, – que não é lá uma expressão muito fácil de se fazer, mas Felipe consegue com proeza – solta: ‘Eu já sou. Quase todo dia vem gata da Federal, da Camilo Filho, da Facid, de num sei mais onde, querendo falar comigo sobre isso também.’
E a gente achando que ia ser original, imagina.

E, Maurício, apesar do cabelo comprido e loiro, pode tirar o cavalo da chuva: o ‘gata’ era pra mim.
Mas bem. Felipe faz malabarismo e outras atividades circenses no semáforo há 2 anos. Pouco tempo pra quem demonstra ter tanta habilidade com a coisa. Acontece que ele faz parte da Escola Zoin de Circo há 6 anos, e isso, até então, eu não sabia. Essa escola – pesquisei depois- foi criada em 1996, pelo piauiense Frank Mamu com o intuito de apresentar aos jovens a curiosidade de ter uma nova experiência. O Circo funciona todas as manhãs, e é por isso que Felipe prefere ir para o semáforo à tarde. Eu e Maurício nos entreolhamos: tivemos sorte.

O dia-a-dia é puxado. Natural de Teresina, Felipe já mora em Timon há 10 anos. Todo dia vem de ônibus até aqui, procurar trânsito cheio. Ele diz que fatura em média 30 reais por dia. E essa média aumenta, como um presente dos reis magos, na época de Natal, quando já chegou a ganhar 50 reais de uma senhora. Diz precisar desse dinheiro pra sustentar a filha pequena de 2 anos. “Cada pessoa me dá por volta de 1 real, 50 centavos. Às vezes mais. Às vezes nada. Às vezes aplausos. Mas aplausos também servem.” Como qualquer artista, ele demonstra gostar do reconhecimento do público. Daquele público diferente, passageiro, inusitado, e constantemente com pressa, fechado em seus veículos. Muitos fecham as janelas do carro quando Felipe se aproxima pra pedir o trocado. ‘O pessoal confunde artista com marginal.’ Ele se revolta. A gente também. Mas nada tira a disposição da nossa celebridade do dia. Felipe disse que o tempo que dedica àquele trabalho varia de acordo com a sua energia. Faz porque precisa. Mas se diverte muito mais do que trabalha. Às vezes, entra pela noite, matando aula em uma escola pública municipal de Timon, onde cursa ainda o 1º ano do Ensino Médio. “É que acontece que a 5ª série foi meu ano preferido. Repeti 3 vezes!”, brinca. Mas é à noite então que o espetáculo passa a ser fascinante: Felipe faz malabares com fogo. E já perdeu a conta de quantas queimaduras tem no corpo em função dos treinos. “Já derrubei também o ioiô em cima de uns 2 carros. Mas as pessoas nunca dizem nada não.” Afinal, acidentes acontecem, meu chapa.

“E aeee, chegado!”. Um rapaz passa em um carro e grita. Ao que Felipe responde “Faaala, corno!”. Isso se repete mais umas 4 vezes durante a manhã, provando que Felipe já é de fato uma celebridade naquele ponto da cidade. E como qualquer outra celebridade que se preze, não se sente por baixo: “Tudo que você imaginar de arte circense, eu faço. Não é querendo me sentir não, mas eu vivo disso. Me acho talentoso sim. Poucas pessoas conseguem fazer o que eu faço”. Lá por umas tantas, revela: sonha em entrar pro Cirque de Soleil. Companhia circense canadense, conhecida como maior do mundo. Coisinha à toa, sabe. Cujos espetáculos, Felipe já teve a oportunidade de assistir 2, ao vivo. ‘Saltimbancos’ e ‘Alegria’. Em São Paulo e Brasília, respectivamente – enche o peito pra falar – Isso, graças a uma contemplação da rede Circo do Mundo, como ele mesmo nos conta, que todo ano escolhe algumas escolas de circo para irem as apresentações. “Pagam passagem, hospedagem, tudo.” Mas, voltemos ao sonho: “Tô indo para o Beto Carreiro no fim do ano. Já é um pontapé.” Eu sorrio, lembrando que o cara já até morreu – desculpem, humor negro incontrolável – mas ele logo completa: “Vou começar por baixo, como tudo na vida.”


11 horas. O calor aumenta. Felipe comenta já estar com fome. Eu pergunto se ele vai em casa para o almoço, e ele diz que geralmente come nos restaurantes próximos ao cruzamento mesmo. Eu penso na filha dele. Ele também deve ter pensado. Não sei. Hesito em perguntar a respeito da mãe. Fico imaginando um jovem, desses que ainda acredita no fascínio do circo como solução para muito de seus problemas, cuidando de um bebê. Paro, penso. Resolvo perguntar. Que planos tem para o futuro da filha e para seu próprio futuro também, afinal. Felipe me olha com cara de quem acabou de dá a resposta que eu precisava. Quer ir para o Cirque de Soleil, será que eu não tô entendendo? Para a filha, diz que deseja liberdade, como a que seus pais sempre deram a ele, de escolher o que fazer da vida. E diz mais: vai ensinar tudo que aprendeu na escola de circo para a filha. Aliás, já está ensinando. Treina com ela contorcionismo. “Ao menos ela viaja de graça, na minha bagagem! Indo comigo pra onde quer que eu for.”
Dou sinal verde para o Maurício fazer as fotos. Entretanto, é do vermelho que Felipe precisa. 3, 2, 1. E lá vai ele para a faixa de pedestre, em seus 30 segundos de arte, desejando que o mundo vire um picadeiro.
E nós aplaudimos ali, de pé.

Foto: Maurício Pokemon

18 comentários:

Willame disse...

Excelente matéria, excelente texto. Confesso que por um momento veio a minha cabeça no final de tudo a cena dele com o iôiô chinês e vocês o aplaudindo.
Parabéns pela iniciativa e sorte.

nem nada, nem ninguém; disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jucélio Jr. disse...

Lindo, lindo, lindo. Salve Marimbondos! Começamos bem.

Tiago Judô disse...

pedim gostei de v
é isso grande
vamo mostrar tudo de bom q tem aki no nosso pi... as principais figura do nosso estado. kkkkkkkkkkkkkkk
vlw

Pedro Augustus disse...

Muito bom, belo começo! E muito mais virá!

Georgiana disse...

Não poderia ter começado de forma melhor. E, mais uma vez, meus parabéns, Lu.

E que venham muitos outros!

Anônimo disse...

Amei a matéria lu.parabéns=)

Jucélio Jr. disse...

Opa, opa, opa...! Não poderia deixar de comentar:
belas fotos, Maurício. Tô adorando os textos, galera. Parabéns.
Que venham os próximos.

Publicista! disse...

Muito bom Luana!
Eu já te disse que admiro seu jeito de esrvrever.
Excelente!
bjs

Publicista! disse...

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Georgia disse...

Mana, tu é realmente MUITO boa em tudo que tu faz! :D
como eu já disse, comecei a ler a matéria e eu já sabia que era a tua sem nem ter visto o teu nome no final do post!
Além de super bem redigida, muito interessante. É disso que a gente precisa :D

Começou em grande estilo... E eu mal posso esperar pela próxima!

camila disse...

luana, adorei a matéria! :D
parabéns mesmo!
bjo

Rosa disse...

Perfeito seu texto. Dá até pra imaginar que estamos ali, ao lado do Felipe, admirando seus malabares. Arte de rua é mesmo muuuito interessante! Parabéns.

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